Pesquisador da USP mostra benefícios clínicos e financeiros no uso de eletroestimulação no tratamento

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A segunda maior queixa de dor da população brasileira — atrás apenas da hipertensão —, de acordo com o IBGE, trata-se de um problema que ganha pouca voz na mídia: a dor lombar. A princípio, a dor lombar não parece ser motivo de tanta preocupação, mas se não tratada — tornando-se crônica —, pode interferir em uma série de atividades cotidianas, comprometendo a qualidade de vida dessa pessoa. Além disso, por se tratar de uma dor que atinge grande parte da população, os sistemas públicos acabam ficando cheios e seus pacientes piores. Preocupado com esta situação, Fuad Hazime procurou novos tratamentos para a dor lombar crônica através de sua tese de doutorado, Eficácia analgésica da estimulação elétrica cerebral e periférica na dor lombar crônica inespecífica: ensaio clínico aleatorizado, duplo-cego, fatorial, realizada pela Faculdade de Medicina da USP.

Dores crônicas

O pesquisador decidiu combinar duas técnicas de estimulação elétrica com o objetivo de potencializar os seus efeitos analgésicos para o alívio da dor. Uma das técnicas é a eletroestimulação transcraniana que, apesar de não ser uma modalidade nova, tem apresentado resultados promissores nos tratamentos de dor crônica. A outra técnica utilizada foi a estimulação elétrica periférica, método bastante utilizado na reabilitação dos pacientes de dor lombar. A escolha do estimulo cerebral se dá pelo caráter crônico da dor. De acordo com Hazime, quando a dor se torna crônica ocorrem alterações na estrutura e função do cérebro, fazendo com que a conexão entre dor e o local onde ela foi originada — no caso, a lombar —, fique bastante frágil. “A dor é inicialmente um mecanismo de proteção. Você não vai jogar bola ou correr porque sente dor. Mas se não é tratada corretamente ela pode evoluir a uma dor lombar crônica, caso o tempo de permanência dos sintomas seja superior a três meses. Nesta condição, a dor perde seu valor adaptativo de proteção, representando importantes barreiras para o sucesso do tratamento e recuperação”. Neste momento, a lesão inicial pode estar cicatrizada, mas as alterações cerebrais em decorrência da persistência da dor não. Pequenos estímulos são amplificados e, em alguns casos, estímulos comuns, como passar um pincel na pele, são interpretados como dor. “O sistema nervoso fica muito sensível,  qualquer estímulo não doloroso pode ser interpretado pelo paciente como dor, o que chamamos de alodinia”, diz Hazime.

Com a estimulação elétrica periférica e, principalmente, transcraniana, estas alterações cerebrais podem ser modificadas ou prevenidas. As estimulações somadas podem aumentar o nível de excitabilidade cerebral, que esta associado ao alívio da dor. Estudos recentes apontam que estas estimulações podem bloquear ou reduzir os sinais dolorosos por meio da liberação de opioides endógenos, substâncias que promovem a insensibilidade da dor, em regiões do sistema nervoso chamadas córtex cingulado anterior e substância cinzenta periaquedutal. “A estimulação transcraniana pode ainda inibir neurônios do talamo — importante local onde chegam os sinais de dor e são redirecionados —, diminuindo sua hiperatividade. Quando aumentada a atividade dessas áreas do sistema nervoso, a produção de opioides também aumenta”, explica o pesquisador. “O que entendemos é que o bombardeamento de estímulos no nosso sistema aumenta a produção de substancias que aliviam a dor e diminui a hiperatividade de áreas envolvidas no processamento da dor. Quando as duas técnicas foram unidas, foram capazes de maximizar o sistema de controle da dor”, complementa.

A pesquisa

Para confirmar a eficácia do tratamento, Hazime elaborou um tratamento baseado em três sessões semanais, realizadas por quatro semanas. O estudo foi realizado pela clínica escola de fisioterapia da USP, em parceria com o centro de reabilitação da Santa Casa de São Paulo. Foram divididos 92 pacientes, de 18 a 65 anos, de dor lombar crônica em quatro grupos distintos. No primeiro grupo foram aplicadas as estimulações cerebrais e periféricas reais. No segundo, apenas a estimulação cerebral foi aplicada de verdade e a periférica foi apenas simulada. No terceiro foi aplicada a periférica de verdade e a cerebral simulada. Por fim, no grupo chamado de placebo, ambas estimulações foram simuladas. Hazime ressalta que após encerradas as sessões da pesquisa, as pessoas do grupo placebo tiveram preferência no atendimento. A eletroestimulação, que é aplicada através de esponjas umedecidas posicionadas na região cerebral correspondente ao córtex motor primário e eletrodos autoadesivos na região lombar, teve uma grande aceitação dos pacientes por se tratar de um tratamento não invasivo e de efeitos colaterais mínimos.

As avaliações eram feitas antes e depois das sessões e também houve o acompanhamento dos pacientes após quatro semanas, três e seis meses do tratamento, para avaliar se o efeito era apenas imediato ou prolongado. Os resultados encontrados por Hazime foram de acordo com o esperado, ou seja, em todas as avaliações a soma das técnicas apresentou um resultado clínico superior às isoladas e ao grupo placebo. Nas avaliações imediatas e após quatro semanas, o efeito das duas técnicas somadas chegou a ser semelhante ao efeito da estimulação periférica isolada, mas na avaliação após três meses apenas as duas técnicas combinadas mostraram efeitos importantes, um diferencial interessante no tratamento. Após seis meses, nenhum dos grupos mostrou resultados.

Apesar de afirmar que ainda é necessária a realização de mais estudos, a avaliação positiva das duas estimulações combinadas é um grande passo para viabilizar a técnica, que aparece como mais uma alternativa ao tratamento da dor lombar crônica. Além dos resultados clínicos, o caráter financeiro aparece como outro aspecto positivo. Hazime calculou os gastos com as sessões chegando a números animadores. “O custo por sessão, envolvendo a compra do material, o tratamento do profissional e a compra dos materiais descartáveis é em torno de R$1,44. Até pro financiamento do SUS é viável, porque ele repassa R$4,67 para cada sessão de fisioterapia pra dor lombar”, destaca. Através da aceitação dos pacientes, da viabilidade financeira e dos resultados clínicos positivos, a eletroestimulação transcraniana somada à periférica poderia futuramente ser implantada em postos de saúde, auxiliando na super lotação do sistema público de saúde. “A gente acredita que o alívio da dor lombar crônica por até três meses com a soma das técnicas, que não são invasivas, não são farmacológicas, têm efeitos colaterais mínimos, são bastante toleradas pelos pacientes e por se tratar de um tratamento barato, pode contribuir significativamente para redução da dor e incapacidade dos pacientes com dor lombar crônica”, conclui o pesquisador.

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